VI NO BUSÃO

Você já presenciou alguma cena, ou situação engraçada em um ônibus? Com certeza sim... Aqui coloco as crônicas das situações que eu vejo todos os dias na minha maldita jornada coletiva...

Sexta-feira, Novembro 24, 2006

Olha eu de novo por aqui! Depois de longos e tenebrosos invernos, verões, primaveiras e outonos, resolvi retomar o Vi no Busão. Nesse tempo todo sobraram histórias para contar, mas faltou paciência para eu escrever. Até tem uma interessantíssima que devo reproduzir que aconteceu em Baruebas, apelido carinhoso que atribuí à terrinha onde trabalham meus pais, Barueri. Essa eu deveria dar o nome de "o cúmulo do azar". Bom, apesar de andar boa parte dos dias com o Jimeno - nome do meu carro - existem outros tantos que continuo no coletivo. E as histórias tendem a continuar... vejo vocês logo mais...

Sexta-feira, Março 05, 2004

Praça Ramos 7258 (Devia ser 1 é 50, 2 é 1 e um passe leva três)


O trânsito da Teodoro Sampaio estava todo parado. Eu tinha uma consulta médica marcada para as seis e quinze. Já eram seis e vinte e eu estava ainda bem longe do meu destino final. O mau-humor era incontrolável. O ônibus chacoalhava e eu achava difícil as coisas ficarem piores, quando...

- Com li-cen-ça meus a-mi-gos.

Não. Não podia ser. Realmente as coisas tinham ficado piores.

- Es-tou a-qui pa-ra di-vul-gar o meu tra-ba-lho que é ven-der es-ses lin-dos a-de-si-vos. E-les tra-zem per-so-na-gens da tur-ma do Mi-ckey, e-van-gélicos, co-mo o Des-mi-lin-gui-do, a-lém de ou-tros per-so-na-gens que sur-gi-ram nos úl-ti-mos a-nos e fra-ses que va-lo-ri-zam a vi-da. Eu pe-ço por fa-vor pa-ra que vo-cês pe-guem as car-te-las sem ne-nhum com-pro-mis-so.

Só pelas frases pausadas e irritantes que ele pronunciava eu não peguei as cartelas. E eu fui a primeira pessoa que ele tentou distribuir.

- Pegue, minha amiga. É sem compromisso.

Eu não sou sua amiga. Tive vontade de responder. Me contive e acenei com a cabeça negativamente.

- Não, obrigada.

- É sem compromisso, pode pegar.

- Não obrigada, não quero, obrigada, não, obrigada.

Acho que fiz uma cara tão feia que ele resolveu desistir de mim e decidiu atacar outros alvos. Varreu o ônibus. Entregou os adesivos para todos e ao final disse.

- En-tão, a-go-ra que vo-cês já co-nhe-ce-ram meu tra-ba-lho, vou di-zer quan-to cus-tam as car-te-las. U-ma é cin-quen-ta, um re-al le-va du-as e um pas-se de ô-ni-bus de São Pau-lo le-va três. Mui-to o-bri-ga-do a vo-cê que a-cei-tou ver as car-te-las sem com-pro-mis-so só pa-ra me a-ju-dar no meu tra-ba-lho.

Era uma direta para mim. Só podia ser. Aparentamente eu era a única que não havia pego os malditos adesivos.

- Quem qui-ser tro-car de mo-de-lo é só me pe-dir que eu le-vo até vo-cês ou-tras car-te-las. São 80 mo-de-los com fra-ses de va-lo-ri-za-ção à vi-da.

Bom, a lenga-lenga tava no fim, né?! não era possível ter mais. Mas novamente me enganei.

- E co-mo em to-da boa ven-da, eu fa-ço uma pro-mo-ção. Na com-pra de qual-quer car-te-la vo-cês le-vam in-tei-ra-men-te grá-tis um mar-ca-dor de li-vro, que ser-ve pa-ra mar-car as pá-gi-nas dos li-vros que vo-cês es-tão len-do.

- Jura? - murmurei, com o meu mau-humor a flor da pele. Nisso, o imbecil do motorista nem sequer tinha mudado de faixa para entrar à esquerda na Doutor Arnaldo.

Daí pra frente ele passou recolhendo o material. E despediu-se da platéia com um:

- Mui-to o-bri-ga-do no-va-men-te a vo-cês. Te-nham uma boa vi-a-gem. Mo-to-ris-ta, dei-xo a-qui com o co-bra-dor do-is mar-ca-do-res de li-vros co-mo brin-des pa-ra vo-cês. Mui-to o-bri-ga-do.

Desce logo, caramba, e pára de encher, foram meus últimos pensamentos antes do coletivo deixar a Doutor Arnaldo e pegar a imensa Cardoso de Almeida. O mala desceu. E o ônibus também.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

Itaim Bibi 958-P (Devia ser 958 ACFDM, de Ana Carolina, Florinda e Dona Maria).

- Ei, psiu, chama ela. Chama a dona Maria pra mim. É, aquela de terninho.

A velhota estava sentada ao meu lado, no último banco alto perto da porta. Estava com um vestido branco de malha que mais parecia um camisolão. Cabelos curtos, brancos, uma sandália branca também e um jeitão meio desengonçado. Ela sussurava para o cobrador e apontava para uma outra senhora que estava no começo do ônibus, perto da porta de entrada.

- Chama a Maria pra mim? Isso, a dona Maria, eu tenho uma notícia para dar para ela - falava baixinho articulando bem os lábios para o cobrador conseguir entender. Os passageiros ao nosso redor, porém, prestavam atenção pra ver qual seria a notícia.

- Ela? Aquela? Ali? - rebatia o cobrador, apontado para uma baixinha a uns quatro bancos para frente.

- Isso, é ela.

Ele chamou. Ela estava de costas, mas virou para ver o que acontecia. Deu de cara com a velhota lá, no fundo do banco, perto de mim.

- Oi!!! Tudo bom? Quanto tempo! - gritou a D. Maria lá do começo do ônibus, vindo em direção à roleta.

- Não, Dona Maria, fica aí. Pode ficar. Eu só tenho uma notícia: a Neide ganhou uma menina! - disse em voz alta, pra tentar superar o ruído fanhoso que fazia o ônibus ao acelerar.

- Oh! Uma menina!

- Ganhou! Ganhou uma menina no sábado. Cabeluda que só. Chama Ana Carolina. Ela tá muito feliz.

Pagando a passagem, e passando a roleta, a D. Maria se aproximou.

- Oi Florinda! Quanto tempo!

- Cê tá bem, Dona Maria? Você precisa ver a menina da Neide! O marido dela que me contou e pediu pra eu ligar para você! Ele disse que tava mexendo em uns papéis pra dar entrada, porque ele não sabia se seria cesária ou parto normal, e quando viu, a enfermeira entrou com a menina no colo no berçário. Cabeluda que só.

- Que belezinha! Quero ir lá ver - disse a D. Maria com uma cara de paisagem imaginando a menininha cabeluda.

- Você precisa ver! - complementou a Florinda.

As duas ficaram papeando ainda e eu, no meio. A Maria em pé com a barriga encostada no banco da frente, e a Florinda, ao meu lado, sentada. O coletivo foi chegando perto do Shopping Iguatemi e a velhota de vestido camisolão foi se ajeitando até disparar com um sorriso amarelo um:

- Licença, por favor!

Desci do banco segurando minha pasta plástica, minha maleta e minha bolsa, tentando me equilibrar no chacoalhante Itaim Bibi. As duas, ainda de tititi. A velhota desceu do banco, e com seu corpo gordo e flácido, ficou ao lado da D. Maria obstruindo a minha passagem. Não conseguiu. Pedi licença entre o tititi e consegui sentar. Só ouvi um:

- Tchau dona Maria. Vai até a maternidade ver a menina da Neide porque é linda. Cabeluda que só! Eu te ligo, viu, eu te ligo, um beijo, tchau. - afirmou a velhota em voz alta já saindo pela porta do coletivo dispersando os passageiros que se concentravam em suas conversas.

- Cunversa di cumadre! - disse a sorridente dona Maria pro cobrador.

É, pode-se perceber. A menina cabeluda que só da Neide, rendeu um bocado hoje.

Itaim Bibi - 958P (Devia ser 958 OR, de Ônibus das Reclamações)

Usava colete preto de um tecido brilhante. Uma camisa clara de mangas compridas, uma calça cinza-chumbo e sapatos pretos. Tinha pele rosada, bastante enrugada, e cabelos parcialmente brancos Devia ter uns 65 anos, pelo menos, mas passou a roleta e fez do coletivo lotado daquela manhã seu muro das lamentações.

- Essa linha é muito ruim. Além de demorar muito e ter pouco ônibus ainda quebra - disse, já próximo à porta, em vias de descer em seu ponto, referindo-se à experiência de trocar de ônibus que tivera naquela manhã em virtude do coletivo anterior ter apresentado problemas mecânicos.

Não estava sozinho. Um colega o acompanhava. Mas suas lamentações cativaram os demais usuários do Bibi daquela manhã.

- É verdade. É um absurdo isso - respondeu uma moça de uns trinta e poucos anos que também se acotovelava no corredor.

- Eu vou ligar pra Marta. Vou ligar lá pra essa muié e dizer pra ela que essa linha está péssima e que precisam colocar mais ônibus aqui. Eu tenho o telefone do gabinete dela - acrescentou o grisalho.

- Eu apoio! Eu apoio - respondeu em voz alta o cobrador, atraindo para si a atenção da parte traseira do coletivo.

- Na campanha desse ano eu vou propor a criação de uma linha São Eugênio - Clínicas. Senão eu preciso tomar dois ônibus até chegar lá.

- Mas o Vila Mariana também passa nas Clínicas, respondeu o cobrador.

- É, mas não passa em São Eugênio.

- Passa perto.

- É, mas tinha que passar em São Eugênio. Existia essa linha São Eugênio-Clínicas, mas que tiraram quando mudaram o sistema. Vou sugerir pra ela na campanha desse ano.

Os passageiros acompanhavam com os olhos o bate-rebate entre cobrador e passageiro como se assistissem a um jogo de tênis. A bolinha, porém, perdeu de vista uma de suas raquetes no ponto da Faria Lima perto do cruzamento com a Rebouças. O eleitor consciente desceu, entrou em um boteco pra tomar café e o ônibus todo riu. Inclusive eu.

Quinta-feira, Dezembro 11, 2003

846-M - J. Marisa (Devia ser 846-MDQG, de Meu Deus, que grande!)

Era róseo. Róseo e grande. Muito grande. Na verdade nunca vi um daquele tamanho. Chegava a ser brilhante, como as carecas lubrificadas com vasilina dos calvos naturais. Até reluzia, provavelmente refletindo a imagem daqueles que passavam em frente a ele. O dono daquele imenso volume subiu no ônibus no fim da Joaquim Floriano. Tenho certeza que seu elemento não chamou só a minha atenção, mas provavelmente de todos que habitavam o coletivo naquele momento e principalmente do cobrador, que ficou cara a cara com ele. Na base de cima era fino e se abria como um leque no decorrer do comprimento. No "pé" do monumento, alguns pêlos se projetavam para baixo. Aquilo deveria ser um paraíso para cravos e espinhas. Fiquei imaginando também a quantidade de secreção que aquilo podia comportar. Sem dúvida, deveria abrigar mais líquidos do que o de uma pessoa comum. Mudei de pensamento. Era ruim ficar olhando para aquilo daquelas proporções sem rir. Virei o rosto para não ficar encarando. O rapaz poderia ficar sem graça. Mas cheguei a uma conclusão: era, sem dúvida, o maior nariz que já vi na minha vida.

Quarta-feira, Dezembro 10, 2003

958-P - J. Nardini (Deveria ser 958 PFVMELQJF, de provavelmente foi a viagem mais engraçada e longa que já fiz)

O drama começou logo no ponto. Da esquina já avistei pelo menos umas vinte pessoas amontoadas no ponto final. Deve estar chegando, pensei. Grandissíssima ilusão. Andei uns 20 metros e fui para o final da fila. No caminho, as pessoas um tanto quanto estressadas reclamavam da demora do coletivo. A maioria, sozinha, puxava papo com os vizinhos da frente e de trás.
Cheguei no final da fila e fui seguida por uma mulher com uns lírios roxos (nunca tinha visto daquela cor!) nas mãos. As flores estavam enroladas em um papel meio verde de sulfite. Será que ela tinha roubado do jardim do escritório?

- Gente, como tem Pirituba, não? Meu Deus! - Disse olhando para mim.

- É, no mínimo o dobro do que o Nardini.

- É, pra cada um passam quatro! (Complementou em tom de precisão.)

A essa altura já estava perto das oito da noite. Do outro lado da Faria Lima vi passar um Itaim Bibi 958-P. Comemorei. Ele só precisava fazer o retorno e estávamos salvos. O detalhe é que o coletivo demorou no mínimo uns quinze minutos para fazer o retorno. Depois da jornada, encostou no ponto final.

- Depois a gente bate no motorista, e ele não sabe porquê. - Disse a tia dos lírios roxos em tom ameaçador.

Mas essa não foi o grande destaque da noite. Lá para o meio da fila, uma gordinha trajada de calça social preta, uma blusa de linha branca, sapato alto e óculos de fundo de garrafa roubou a cena. Com as mãos na cintura, quadril quebrado para o lado direito disparou quando o motorista desceu:

- Pô! Isso é hora de chegar hein?!

- Oi Adriana (descobriria depois que esse era o nome da figura). O trânsito hoje tava duro. Fiquei uma hora parado no Ceasa.

Ela não sossegou. Estava acompanhada de uma amiga. Entramos no ônibus. Descobri que ele, ônibus, estava atrasado apenas uma hora e quarenta minutos. Era para ter saído do ponto final às seis e vinte. Passei a roleta. Sentei no banco exatamente atrás da garota. Essa vai render boas histórias, pensei. Foi mais rápido do que eu imaginava.

- Tira essa blusa. Você não está com calor? - Disse para a amiga.

- Não, estou bem assim.

- Ah, tá super quente. Tira aí vai. João você não está com calor? (disse na seqüência para o cobrador, que parecia conhecer há séculos).

Com um visível desinteresse e uma cara de cansado, o João respondeu que não estava. Para expressão dava para perceber que ele estava nítidamente enfastiado de passar o dia todo naquele ônibus. Ela, porém, não se intimidou.

- Ah, João tira aí. A gente fica aqui assistindo você fazer um strip tease! Tira! Tira! Tira! - disparou acompanhada pela "dança do acasalamento", sabe? Aquela que você une as mãos e movimenta os braços em circulos para frente do corpo.

A amiga riu. O cobrador também. Não foi o suficiente. Duas pessoas somente não eram o bastante para figurar em seu círculo de amizades do ônibus. Apelou para um rapaz bombadinho com camiseta regata, bermudão que subiu perto da esquina com a Tabapuã e que carregava uma mochila.

- Quer que eu leve?

- Não, obrigado.

- Olha que vai encher hein?! Dá que eu levo! - Disse oferecidamente já estendendo os braços para pegar o volume.

- Não, obrigada, mesmo. Eu ponho aqui no chão.

- Tá bom. - Disse em tom conformado. Enquanto isso, o rapaz enrubrescia. Tííímido, que só. Bem ao contrário da moçoila.

Quase chegando na Amauri, subiu o Valmir. Provavelmente outro amigo de coletivo.

- Dá a mala aí que eu seguro. Vai lá pra trás que tem lugar. Depois de levo a mochila.

Ele aceitou e foi pra a parte de trás do ônibus. Àquela altura ela já tinha puxado papo com pelo menos três pessoas, fora as outras duas (João e amiga) que ela pentelhava constantemente. O número rapidamente chegou a cinco...

- Ô amigo! Você pega aqui é?! Gente, essa é a primeira vez que eu vejo onde ele desce acordada. - Disse para quem quisesse ouvir.

Na roleta passava um rapaz moreno de uns 30 anos. Que cumprimentou e respondeu afirmativamente à pergunta da rapariga.

- Não, gente, é que todo dia de manhã quando pego o ônibus do Ubirajara [nome do respectivo cobrador do período matutino] eu encontro com ele. Mas toda vez que ele desce, eu estou dormindo. Então não sabia onde ele descia.

Aaaahhhh. Já passava das oito e meia quando nos aproximamos do Shopping Iguatemi. A mina que era engraçada já estava se tornando irritante sob o meu ponto de vista. Decidi encostar a cabeça e tentar dormir. A tentativa não durou nem cinco minutos. Fui acordada por um chacoalhão súbito. Um louco num corsa havia batido no ônibus.

- Só faltava essa (Pensei).

- Nossa, ele bateu? Ele bateu, João? Fugiu? (perguntava a fofa dos olhos de garrafa frenéticamente, tentando espichar o pescoço para o lado da janela).

- Mas o motorista do ônibus não teve culpa! Ele tava na faixa, o cara é que entrou. (disse antecipando-se a qualquer avaliação sobre a situação).

O motorista andou mais uns metros e parou o ônibus quase em frente ao shopping e desceu. Não agüentei. Comecei a rir. Era bizarrice demais para uma viagem só. Instantes (vários!) depois, sobe o motorista.

- Ela briga com o lazarento, começa a chorar depois pega no celular e sai quimando. Ah, eu não tive culpa não, não quero nem saber.

A gorda garrafuda ainda tentou comentar, argumentar, realmente defender o Francisco, Tião, Benedito, Josmar, Fernando, (sei lá qual era o nome do motorista).

Eu me decidi a não ouvir mais nada. Já passava das nove e eu ainda estava bem longe de chegar em casa. Vi a gorda jogar charme para homens nos carros das ruas lançando os cabelos de um lado para o outro, ouvi parte de uma conversa dela com outra amiga de coletivo. Ouvi a pecinha falar do avô chamado Secondino. Etc. Etc. Etc. Eu estava com fome, cansada e com sono. Entupi o ouvido com o fone do walkman e esperei chegar o meu ponto. Ah! Antes disso, o ônibus ainda quis quebrar. Ainda bem, que desistiu rápido. Virou a esquina da Imperatriz umas nove e quinze. Acotovelei-me com passageiros em pé, e consegui chegar ao final da missão. Desci e fui para casa.

Sexta-feira, Dezembro 05, 2003

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Os de hoje não são muito diferentes desse aqui...

Quinta-feira, Dezembro 04, 2003

958P - J. Nardini (Ele devia se chamar 958 PQD, de putaquipariu que demorado!)

Ele subiu no ônibus no ponto perto do cruzamento entre a Faria Lima e a Cidade Jardim. Todo de preto, brinco de argola de prata vagabunda nas duas orelhas, cabelo cacheado comprido amarrado em um elástico verde-limão fluorescente [meio froxo]. As madeixas estavam visivelmente ensebadas. O suor escorria um pouco pela testa e pelas costeletas.

Subiu pela porta de trás e acotovelou-se com as pelo menos cinquenta pessoas que se espremiam depois da roleta. O ônibus tinha atrasado. Pelo menos uns quarenta e cinco minutos. Logo nos primeiros pontos depois do ponto-final já estava lotado. Eu tive a sorte de subir no segundo ponto depois do final. Consegui um lugarzinho no último banco, daqueles grudadinhos no fundo do ônibus que chacoalham pra caramba.

O cidadão trazia em uma das mãos um saco de bala de iogurte de morango, daquelas que não custam mais que cinco centavos. Na outra, uma caixinha com aquelas balas de hortelã da Garoto. Aquelas, que parecem um pqueno sabão em pedra. Nas costas, uma mochila, com provavelmente outras várias caixinhas de bala.

Apesar dos olhares de censura dos passageiros - principalmente daqueles que tentavam se agüentar em pé após uma quinta-feira de trabalho - ele não se intimidou. Subiu, tirou a mochila das costas e começou.

- Uma balinha pra você jovem! Pode pegar é de graça. Pode pegar que é de coração! Pra você também! Pro rapaz elegante que está aqui. Pra mocinha, pra você jovem, pra moça que está lendo Shakespeare [ELE HAVIA ME DESCOBERTO! MAS NO MOMENTO EU LIA APENAS O NOVO EXEMPLAR DO JORNAL DE TECNOLOGIA, COMPUTERWORLD!] O rapaz aqui do lado também leva uma. Pode pegar, gente é de graça!

E nesse movimento ele percorreu todo a parte traseira do coletivo, levando de mãos em mãos as balinhas de iogurte. Não sei se ele chegou a entregar para os passageiros que estavam antes da roleta. As pessoas em pé me obstruíram a visão.

Não abri a bala imediatamente. Olhei, peguei na mão, cherei. Será que ele tinha injetado algum laxante naquela porcaria? Preferi me poupar da experiência. Meus vizinhos de banco também preferiram não tentar. Depois de entregar a "cortesia", iniciou a sessão vendas. Tirava quatro ou cinco embalagens de drops e disparava:

- Segura jovem, cinco balinhas R$ 2.50. Se levar as cinco ganha um brinde. Segura e finge que vai comprar.

Com essa estratégia de marketing, percorreu novamente toda a parte traseira do ônibus, entregando de mãos em mãos a mercadoria. Não foi bem sucedido em todas as tentativas, mas não perdia oportunidade de zoar nem mesmo com os que rejeitavam a iguaria.

- Quer cinco campeão?

- Não, não quero.

- É que você abriu a mão, achei que quisesse cinco, hehe. - Falou para um homem sentado no banco bem à minha frente depois que ele abriu a mão em sinal de "não obrigado" e acenou com a cabeça.

Com muito sufoco, tirei cinqüenta centavos que tinha no bolso, troco do coletivo e perguntei:

- Quanto é uma?

- Uma é R$ 0,25.

- Me dá duas.

Comprei. Tirei uma do papel e chupei. Senti o sabor do colégio. Das balinhas que nós compravamos de troco na cantina do colégio de madres quando elas não tinham troco. Enquanto chupava, vi o cidadão a três bancos a minha direita mandar um:

- Eu quero da outra, da de iogurte.

- Pô, campeão, essa eu não vendo. Porque depois fico sem pra distribuir.

- É que eu gosto mais dela.

- E se eu não dou, vendo menos. Mas eu te dou mais. Você não quer da outra também? Compra que eu te dou mais da de iogurte.

O sujeito parece que se convenceu e comprou umas quatro das de hortelã. Ganhou um punhado da de iogurte e aparentou ter ficado feliz.

O cabeludo parece que conquistou grande parte do ônibus. Bela estratégia de marketing. Tanto é que disse que com esse "mecanismo de fidelização ao cliente" [obviamente não falou com essas palavras] tinha chegado uma vez até Jundiaí! Pudera, passava no mínimo o triplo do tempo que passavam os ambulantes no ônibus e adotava uma maneira muito melhor de vender do que os tradicionais-dramáticos "DESCULPEM ATRAPALHAR A VIAGEM DE VOCÊS, MAS ESTOU DESEMPREGADO, MINHA MULHER ESTÁ DOENTE E PRECISO COMPRAR REMÉDIO PRA ELA. COMPRA UM CHOCOLATE PRA ME AJUDAR. É UM POR SESSENTA, UM REAL LEVA DOIS E UM PASSE LEVA TRÊS"; ou então, diferente também dos piegas e [de certa maneira ameaçadores?]: "SOU EX-PRESIDIÁRIO E NÃO TIVE OPORTUNIDADE QUANDO SAÍ DA CADEIA. COMETI VÁRIOS CRIMES, MAS AGORA SOU UMA PESSOA DIFERENTE. COMPRA PRA ME AJUDAR".

Fiquei com vontade de perguntar qual era a margem de lucro por vender os drops a cinqüenta centavos, mas deixei quieto. Fiquei olhando pra fora pra ver o caminho passar. Passamos por tanto barzinho, tanta gente no happy hour, e eu lá dentro do 958-P.

Aproveitei o tempo e abri a bala de iogurte. Era perto das oito e meia da noite e já estava com fome. Tirei o papel da bala grudenta. Coloquei na boca. Senti um cheiro não muito agradável, antes do de morango que subiu ao meu nariz, mas acabei mastigando a goma. Era sem dúvida nenhuma uma goma. Fiquei lembrando do gosto dela por um bom tempo, principalmente pelo "caldinho" que ela deixa na garganta. Resolvi colocar outra de hortelã pra afastar o gosto. Vi o colega do banco ao lado colocar a que de morango que tinha ganho, na boca também. Deve ter reparado que eu não tinha morrido ao deglutir a goma e resolveu tentar também.

Enquanto isso, o cidadão recolhia os drops das pessoas que não queriam mesmo comprar. Não me lembro muito bem de onde ele desceu, mas deve ter sido no começo da Pedroso de Morais, um pouco depois do Largo da Batata. Porém, antes disparou uma frase célebre, com a qual encerro o relato de hoje:

- É gente, vocês tem que me ajudar. Minha esposa lá em casa tá tão magrinha que nem absorvente usa mais. Usa band-aid!

Cada uma... Parece mentira, mas não é. Garanto.